Ele nasceu no futuro!


IMPRESSÕES
Percebi que estava no futuro, quando a minha irmã foi dar a luz. No começo, foi tudo como tem sido há milhões de anos, suponho. A bolsa arrebentou, os olhos dela se estatelaram, era tudo tão natural que imaginei que logo em seguida ela iria agachar-se para recolher seu filho por entre as pernas. -O celular. Onde está o celular? Em alguns segundos ela tinha contatado o obstetra, o marido e metade da família de ambos os lados. Era a primeira hora do dia 2 de dezembro de 2000. Madrugada, pois. No saguão da maternidade, vazio e silencioso, uma incrível maquina de refrigerantes iluminada como um disco voador. Meu sobrinho nasceu duas horas depois. Nasceu é maneira de dizer. Foi nascido. O obstetra tinha mais o que fazer e não poderia ficar esperando que o garoto se decidisse a vir ao mundo na hora em que passasse ou minimizasse o horror à vida. Enquanto esperava, diante da porta fechada na minha cara, nenhum som, a não ser o da minha própria respiração. Nenhum choro de bebê. Nenhum lamento. Às vezes um ranger de porta se abrindo e uma maca empurrada por um robô- suponho que fosse um robô- levando roupas para a lavanderia. E dou de cara com uma máquina mais incrível do que a do saguão. -Boa noite. – Cumprimentei, educadamente. Ela não respondeu. Como era uma máquina de café, continuei: -Aceito um café. – Pelo menos ela não falava, pensei. Enfiei uma nota de um real na abertura onde estava escrito “enfie aqui uma nota qualquer”, segui as instruções, a tal máquina, resmungou num som de engrenagens e soltou um capuccino com açúcar e até uma colherinha! -Meu troco! Quero meu troco! – Com desdém. Ela cuspiu, literalmente, as moedas. Vermelha de vergonha por ter desconfiado da sua decência, murmurei: -Está ótimo. -Ela não se dignou a responder e apitou alguma coisa, piscando uma luzinha verde. Acho que estava me oferecendo outro tipo de café. Tinha vários: café com leite, café com creme, café simplesmente, chá, amargo, com açúcar e sem açúcar. Aceitei um capuccino com chocolate e teria provado todos eles, não fosse a rapidez com que ela fazia o tal café e a urgência do obstetra. Meu sobrinho veio à luz num intervalo de um café com creme. No resto da madrugada ninguém viu o recém nascido, a não ser a mãe, é claro, porque na maternidade não existe berçário, pelo menos não igual àqueles em que a gente olha o recém chegado através de um vidro. Poderia ter sido diferente se alguém tivesse dito antes que havia uma câmera na sala de partos. Poderíamos, se quiséssemos, acompanhar a chegado do bebê ao mundo, numa tela de vídeo. Poderia também ser filmado por uma câmara digital e aparecer na rede. Por pouco o meu sobrinho já não nascia plugado na Internet. Foi o que me disseram. Na manhã seguinte, antes de pegá-lo nos braços, uma outra máquina me obrigou a apertar um botão, acionando alguma coisa que me lambuzava as mãos com um gel bactericida. “ Não toque no bebê antes de 30 segundos”. Entendi 30 minutos e fiquei apalermada com as mãos desinfetadas, sem ousar encostar no garoto, que por sinal é lindo como um bebê do futuro. Os bebês antigamente nasciam feios, na maioria das vezes cresciam feios e morriam mais feios ainda. Depois dos trinta minutos, peguei-o nos braços e ele me olhou com uns serenos olhos acinzentados. -Olá. Prazer. Bem vindo ao futuro. Tenho certeza de que ele não achou graça nenhuma.

AH! ELES...


Eles acham que sexo é a prova da existência de Deus.

Eles conseguem trocar o pneu do carro trinta vezes durante uma viagem de 300 quilômetros sem derramar uma lágrima. Aliás, eles não choram nem quando vão ao cabeleireiro e saem de lá com uma cara de veado porque o 'zinho' errou na mão, isto é, na tesoura.

Eles colocam um som de U$2.000 num carro que não vale R$5.000. Eles vão ao supermercado e compram o essencial com a cara mais lavada do mundo, como se o supérfluo não fosse essencial.

Eles pensam em sexo de 20 em 20 minutos.

Eles nunca encontram nada nas gavetas.

Eles são mesmo muito esquisitos... mas quem se importa?

(Tô impossível hoje!)